POETA COISA NENHUMA!



ESFRIANDO

Solidão a dois:
No mesmo prato
O feijão de um lado
Do outro, o arroz
Sem nada no meio
Esfriando...

01/07/2017
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LEITO DE MORTE

Meia-tarde macilenta de verão
A cama me agarra com uma força que eu não supunha
Agarra-me com todos os seus dentes e unhas
E eu morro noutro sono

É vã a luta contra a modorra
A cama tem braços fortes
E lá vem outro sono febril
E vem lá outra morte

No sono, um sonho
Onde, sei lá por que forças
A cama não me faz frente
Arranco-lhe as unhas e dentes
Transformo os grilhões em pó
Humilho essa cadela
Sou mais poderoso que ela
Que sucumbe nesse entrementes

Mas, no mesmo leito, desperto
E, mal tento pôr-me de pé
Uma dama inebriante vira-me areia nos olhos
Cansaço nos movimentos
E ópio nos pensamentos

Eu não luto mais, acato minha sorte
Só busco, agora, a paz
Do último sono, sem sonhos
Da última morte, sem cortes.

23/01/2017
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NO MEIO DO EXPEDIENTE

Então o que é isso
De sentir a tua falta
Já na tarde do mesmo dia
Em que acordei ao teu lado?

De sentir saudade
Um segundo após o beijo
De bom dia
Que te dei
Meio dormindo?

De lembrar de ti
Assim, de repente
No meio do expediente
E bater aquela vontade
De fazer poesia?

Então, o que é isso?
Diz-me, tu, seja lá o que for
Não sei como sentes daí
Daqui, está bem claro: é amor.

16/11/2016
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NOITE BOA

Cama bagunçada
Sinal de visita boa
Na noite passada
Não bagunço a cama à toa.

26/09/2016
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MEUS DIAS

Cá dentro, o silêncio e a solidão
Lá fora, os ruídos alheios
Em ritmos, tons e timbres variados
Os universitários vibram suas vozes
Que me chegam em uníssono pela sacada
Os vizinhos? Não os ouço
Por vezes, julgo não haver nenhum
Quando falam, é pelo motor de seus carros
Pelos incessantes bateres de porta
E pelo ranger áspero das roldanas dos portões eletrônicos
Acionados a distância
Tal qual se me apresentam tais vizinhos – a distância

Cá dentro, eu os fico escutando com curiosidade juvenil
E percebo-me só e mal acompanhado
Neste asséptico cortiço, sou só e somos muitos
Eu, os motores, os portões e portas
A TV, o telejornal, a telenovela
A minha cerveja sem álcool, meus comprimidos
Os vizinhos tácitos e remotos
E o sono, lenitivo que me priva da solidão por algumas horas

Cá dentro, existe uma escada tagarela com corrimão de madeira
Que dialoga com os dois andares da casa sem tomar partido
Contudo, quando estou nela, a infeliz se cala
Ainda assim, eu puxo uma conversa trivial
Pra ouvir o silêncio de sua resposta
E a sua fria indiferença me conforta
Se estou descendo ou subindo
Por alguns degraus, a solidão é morta

Cá dentro, há o quarto da minha filha
Que dá de porta com o meu
Quando ela me visita, é meu cômodo dileto
É um oásis de alegria
Na sua ausência, a solidão nele se aloja
E, dali, põe-se a me espreitar
Num silêncio de expectativa de um não sei quê que nunca vem
Tranco a porta do meu quarto
Aumento o volume da TV
A telenovela retumba pela casa
Bebo outra cerveja sem álcool
Engulo meus comprimidos
Mas ela se mantém em inabalável vigília
Seu escárnio atravessa paredes e ignora portas trancadas
Expulsá-la dali? Só mesmo minha filha!
Mas, tão só no enquanto de suas visitas
Pois que, sai minha filha, solidão retorna
E se instala com a insolência de sempre
E com a obstinação de nunca

Cá dentro, bem dentro, mesmo
Há um coração batendo em descompasso
Há uma cabeça que nada entendeu – e já desistiu de fazê-lo
Há uma alma inquieta e solitária

Lá fora, a explosão dos motores
O ferro contra ferro dos portões eletrônicos
O alarido enfadonho dos acadêmicos
As portas esbofeteando o ar
Os vizinhos silenciosos feito a lua
E o tempo, senhor de tudo

Meu tempo é espera
Enquanto espero
Há esperança
De que, cá dentro
Bem dentro, mesmo
Tudo melhore

Porque, lá fora
Tudo só piora.

27/03/2016
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INCONSTÂNCIA

Um momento feliz é
Fruta mui suculenta
Cuja metade é doce
E a outra me atormenta

Quisera-a doce de pleno
Mas ao final, em minha boca
Somente o amargo do veneno.

24/01/2016
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SAMBA COM FOME

Se falta feijão
Na panela
Dá nada, não!
Batuco no rabo dela
Um samba-canção
E a gurizada se acalma.

Que se há de fazer?
Deixa a fome doer!
Em dia sem feijão
Resta-nos dar de comer
À alma.

26/12/2015
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LIVRO EMPRESTADO

Era para ser, tão-somente
Um breve e despretensioso flerte
Eis que, de repente
Sou laçado com destreza
Por teu encanto, tua nobreza
E ponho-me a ler-te

O flerte virou olhar
O olhar petrificou-me
E inerme, resignei-me

Tua tez amarelecida
Teu olor, teu mofo
Teu bolor
Raptaram os meus sentidos
Teu sábio silêncio que tudo diz
Por um triz
Não rebenta com meus ouvidos

E os sussurros que proferiste
Os tombos que propuseste
As frases que construíste
Com talento inconteste
Sobre tudo aquilo que viste
Na ilha de que vieste
Deitaram-me inerte
Mas de pensamento em riste

Agora, num voo de meia hora
Deleito-me, já, na quarenta e seis
Palpite: antes da aurora
Dou cabo – quiçá antes das seis
Das duzentas e vinte e três

Então
Devolvo o Furacão
Sobre Cuba, o livro em questão
A quem, de bom grado, emprestou-mo
Com os mais sinceros agouros
De “VIVA A REVOLUÇÃO!”

14/06/2015
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OS CAMINHOS DE TODAS AS SEXTAS

Sexta-feira chuvosa
Hoje, não caminharei pelas ruas de Tramandaí
De mãos dadas, junto a ti
Hoje, em razão da chuva
E do adiantado da hora
Ficarei em casa
Lamentando o “lá fora”
Pela janela
E vociferando através dela
Sem te deixar dormir

Hoje, não vou ao encontro do sal
Que a chuva lavou, diluiu, dissipou...
Que a chuva usurpou-me
Terei apenas o sal
Que, a mando do mar
O vento me trouxe
De contrabando
Por cima das nuvens

Hoje é como se fosse
Um dia qualquer
Numa cidade qualquer
Distante do mar
Sem sal e sem os caminhos
De todas as sextas

Hoje, não vou caminhar
Os caminhos de todas as sextas
A noite está-me indigesta
A chuva estragou-me a festa
E até a cerveja me está repugnando

Hoje, sexta-feira de chuva
Não saio
Não salgo a alma
Fico aqui lastimando
A falta de sorte

Hoje estou meio sem norte
Tramandaí
Sem sal, sem ruas
Sem os caminhos de todas as sextas!
Não!
Prefiro a morte.

14/06/2015
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SOBRE LER

Quando se lê, não se é sujeito, é-se objeto
Pois o lido não se altera pós-leitura
É o leitor que se surpreende mais completo
Mais ereto, com maior envergadura
Então, há que se dizer, por mais correto
O livro é o criador de uma nova criatura.

14/06/2015
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A SEGUNDA CHANCE

Aqui jaz um adulto infeliz
Que sempre teve tudo que quis
E que, um dia, de tanto tédio
Quis ser criança outra vez
E jogou-se do alto de um prédio
Que, por sinal, era seu
E morreu

Aqui vive um menino feliz
Que não teve tudo que quis
Mas quer bem tudo que tem
Noite sim, noite também
Sonha com um corpo que cai
De uma altura indecente
Mas acorda e esquece
Não tem posses nem precedentes
Tédio? Qual o quê?
Nunca viu nem conhece!
Abraçou a bola, foi pro campinho
E viveu.

14/06/2015
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MEDICINA DA ALMA

A poesia é a medicina da alma
A alma sã é sã pela poesia
A enferma, só com poesia convalesce

De minha parte
Tudo que não é poesia
Me adoece

A poesia, em seu mister, dispensa
Doutores e barbitúricos
Prescinde de hospitais
E de métodos cirúrgicos

A poesia é a cura
Direta e pura, sem prepostos
Nem segredos
A alma agradece

Se não é poesia, é mero paliativo
Ou placebo
Se não é poesia, esquece.

14/06/2015
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O QUE A GENTE FEZ DA GENTE

E se, de repente
Aquele nosso amor
Que era para sempre
Não mais for suficiente?

Há que se desconfiar
Foi o amor que feneceu
Ou foi, somente, a gente
Que não o compreendeu?

Há que se fazer, também
Um brinde displicente
Com champanhe de Champagne
Ao fim do que era eterno e imortal

Sim, por mais que a gente estranhe
E não entenda, e se arrependa
Afora o sentimento - que é real!
Tudo correu mal.

21/02/2015
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HOMEM QUE É HOMEM CHORA

Quem disse que homem não chora?
Ah, se esse que disse
Visse ou sentisse
A dor do pranto varão...
Dizia isso, não!

A mulher chora pra fora
Uma lágrima que brota
Franca e pálida
Em gotas cálidas
De água e sal
E purga sua própria dor

De alma leve
E coração na proa
A mulher perdoa

Já o homem, chora pra dentro
A seco
Sufoca o eco
Aloca a dor nas entranhas
E a lágrima, irrompendo assim
É veneno
Que age lento
Come por dentro
E enegrece a alma

- Calma...
A mulher sussurra
E, com inexplicável doçura
Desfaz o dique opressor
E lá se vão séculos de dor
Em violenta aluvião
O sol, então, rebrilha
Sobre um homem são

A mulher é a redenção
Faz o homem chorar pra fora
Empresta-lhe sua purgação
E o salva.

22/01/2013
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DEVANEIO DE UM GAMBÁ

E a nuvem passa
Chovendo cachaça
Que azar o meu, ora veja
Estou sem limão
E, neste calorão
De derreter
Bom mesmo era que
Chovesse cerveja!

12/12/2014
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MAIORES DANOS

O que eu quero ser quando crescer?
Um cão!
Indagar-me-ão
Por quê?
Explicar-lhes-ei, então

Um cão!
Pra sentir mais do que entender
Pra ser, não atuar
Pra viver, não desempenhar
Pra ser um ser da rua, do mundo
Ou, com sorte, ter um dono
Que me fustiga; e eu o amarei
Que me castiga; e eu o adorarei
O medo do abandono
Far-me-á seu fiel patrono

Um cão!
Pra me contentar com um afago
Restos do meio-dia
E um cantinho protegido da chuva

Um cão!
Altivo e nobre
Porém, humilde
De olhinhos cândidos
Desprendido e docemente irracional
E assim merecer
Da maneira mais legítima
A alcunha de “humano”
E morrer aos quinze anos
Sem fazer vítimas
Nem causar maiores danos.

15/11/2014
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MENOS UM

Coração
Síncope de vida e morte
Pressinto que, com sorte
Hás de me deixar em paz
Em breve

Coração
Que queres de mim?
Por que me fazes sentir assim?
Amar assim?
Desamar, por fim?
Como te atreves?

Coração
Renuncia, órgão maldito!
Acaba com essa orgia
De sentimentos e ressentimentos em agonia
Acata este mandado
Ora, por quem me tomas?
Sou teu patrão, não teu criado!

Coração
Quero-te quieto, silente
E tu vens irrequieto, dobrando
E retumbando em meu peito
Com vigor adolescente!?
Insolente!

Coração
Dá jeito
Acomoda-te em teu leito
E dorme, como um doente
Pra eu descansar no meu
Feito indigente

Coração
Teu mister é alternar
Vida e morte
Num soluçar entediante
E, desta sorte
Galopar sôfrego
Até não suportar

Pois não hesites, então
Coração
Abrevia tua sofreguidão
É o teu senhor quem ordena
Não faças mais “tum”
Estou realmente farto de tua cantilena
Amanhã, pretendo ser menos um
Sem mais dores, nem amores
Apenas, talvez, flores.

02/11/2014
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A MULHER MAIS RARA

O mar entra pela janela escancarada
Açoitando-me a cara
Invadindo minhas narinas
Curtindo meu couro
Pondo minh’alma na salmoura
Agora, coisa estranha!
Tudo me revigora
E a paz reverbera em minhas entranhas

Impera um silêncio enorme
Ao lado, a mulher mais rara
Dorme profundamente
Na mão, a cerveja – não das mais caras!
Mas gelada, estupidamente...
Embriago-me de álcool e maresia
Iemanjá me vigia pela janela
Sinto-me, assim, meio filho dela

Já é noite avançada
Macilenta madrugada
E eu cogito abrir outra lata
Reconsidero. Melhor dormir!
Como toda quinta-feira
Amanhã é dia de feira
Em Tramandaí
Se eu dormir demais, ela me mata
Mas faço questão. Bebo
Sou, mesmo, incorrigível
Vou dormir...  e já está na hora

Acordar cedo? Impossível!
E a feira fica pra outro dia
E ela, a mulher mais rara
Desperta-me, de repente
Com um beijo de mate quente
E uma sede de amar demente!

04/10/2014
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ROSTO ESTRANHO

Ela veio, como sempre vem
Apresentou-se-me com prosaica sutileza
E foi ficando, crescendo
Adensando-se, preenchendo
Desfigurando-me
E fingindo-se mero adorno de mim

Fui condescendente, admito
Não a quis mandar embora
Desta feita, fingi indiferença
E fiz-me bom anfitrião
Tal hóspede tornava-me invisível
Manhã após manhã

Até que, um dia, frente ao espelho
Sem nem ter bem acordado, ainda
Não me vi nele!
Vi corruptela de mim
Um não-eu sinistro
Que era, mas não era eu
Desconhecido, mas intimamente familiar

Assustei, desassustei e percebi
Fora ela, essa danada
Dada a minha indulgência
Quem me pôs tal mascarilha!
Pudera
Quem mandou dar-lhe guarida!?
Agora, zoa-me às braçadas
Com sonoras gargalhadas

Cá estou, perplexo
Encarando aquele rosto estranho no reflexo
Tentando, contudo
Compreender o nexo
Entre a barba e o ser barbudo.

10/08/2014
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CABO DE GUERRA

O passado
E o futuro
Jogam cabo de guerra

Brincam com uma corda
Mui resistente
Chamada presente

E nessa eterna hesitação
Entre o que houve e o que haverá
Reside tudo o que há.

11/07/2014
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FICTÍCIA ACADEMIA

Hoje, caí na real
Dei-me conta de que sou mortal
E troquei de mal com o espelho
Eu, mortal?
Entre tantos que se hão de ir
Chegará o dia em que me vou, também
Assim, sem honras, sem mais
Sem ter sido alguém?
Senti-me muito mal
De mais a mais
Compreendia-me reles, vil
Até imoral, pois
Mas mortal?!

Hei de mudar tudo isso
E escrever muita poesia
Muita mesmo! A rodo e a esmo
De gosto, até, bem duvidoso
E então, num dia glorioso
Feito um ribamar, um coelho, um cardoso
Fardar o fardão da idiotia
E fartar-me na fictícia academia
Dos autores que não escrevem
Dos doutos ignorantes
Das letras atormentadas
Dos tais imortais que morrem.

22/02/2014
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BEIJOS

Vivo em busca de ensejos
Pra sorrir
Pra escrever
Pra dar-te um beijo

Mas meus ensejos são fugidios
Escapam-me
E eu choro
Emudeço
Desejo-te e não te beijo

Mas, de repente, dou-me conta
Estão aí os ensejos que reclamo
Tapeando-me a cara
Puxando-me os cabelos:
O pranto, o silêncio
E o desejo sem beijo
E eu aqui, desolado, sem percebê-los!

O pranto, hão de convir
É um belo ensejo pra sorrir

O silêncio da folha em branco
É terra fértil para o verso
Que compõe o poema
Que faz o poeta
Que sou eu!

E o beijo que eu não te dei
(por falta de traquejo, não de afeto)
Enseja o beijo que te darei
Seguido de tantos outros beijos
Pois sou poeta, ora bolas!
Livre, louco e irrequieto

Pro inferno com os ensejos
Quero beijos
Sem ritos e sem pretextos
Beijo assim mesmo, avulso
De impulso
Sem contexto.

18/01/2014
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INSUPORTÂNCIA

Aquilo que não suportamos
Devia-nos não importar
Eis que, se nos importamos
Passamos a suportar
A insuportância de se importar.

12/12/2013
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EU

Projeto-me 100
Suponho-me 80
Julgam-me 40
Querem-me 20
Toleram-me 30
Sou 50.

03/12/2013
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VIDA PREMENTE

Levava uma vida premente
Tudo havia de ser pra ontem
Tudo era urgente
Suas metas, ambições
Seus sonhos, suas resoluções
Tudo pra ontem, sem protelações
Amanhã era sempre tarde demais

Ontem ela morreu. Atropelada
No afã de atravessar a rua
Desatenta e apressada
Pois pisar no passeio oposto era também pra ontem
Chovia, e a van, alucinada
Cuspia alunos uniformizados pra anteontem
Foram vãs a buzina e a freada
Hoje nunca foi a tempo
O agora foi a destempo

Ontem, o prazo expirou
E ela despediu-se de tudo que sempre fora pra ontem
Ontem, nada aconteceu
Ontem, ela só morreu
Depressa; de pressa de viver
E morrer, na sua conta, não era pra ontem
Mas, na insondável conta do acaso
Era ontem o derradeiro prazo

Hoje, estamos de luto
E o luto é paciente e metódico
Arrasta-se num tempo só seu
É infalível e cruel
E parece que não é pra ontem, nem pra hoje
Parece que é pra sempre
Choramos
Chove: chora também o céu
Num pranto de tresantontem.

26/10/2013
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PRETO, POBRE E SEM DENTES

Vê que sorriso!
Preto, pobre e sem dentes
Quase só caninos e sisos
Sorriso que me cativa
E me comove pra caralho!

Um sorriso que sofre, chora e gargalha
Para um mundo melancólico e sisudo
Que lhe sonega quase tudo
Menos o direito de arreganhar-se
Da vida
Preta, pobre e sem dentes

Tal sorriso é a humilde maloca
Do mais gentil anfitrião
E a falta dos dentes, vê-se da rua
Não é mais que a porta da frente
Escancarada e convidativa
A sussurrar suavemente
Entra! A casa é tua!

Preto, pobre e sem dentes
Sorriso que me cativa
Assim, franco e desavergonhado
De sorrir só com as gengivas.

31/08/2013
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MEUS MEDOS

Em cada gesto meu, um medo meu se manifesta
Alguns, contraveneno do que em mim não presta
Pondo-me limite, impondo-me a reprimenda indigesta
Outros, medo real, medo vivo
Respeitoso, resignado e conclusivo

Se sou cruel – que em muitas sou
Temo a intervenção da consciência
Que faz doer o que não doeu quando devia
E faz rever com olhos que não havia
Prescrevendo-me a indulgência

Numa contenda ocasional, digamos
Dessas triviais por que passamos
Temo ter razão sem merecê-la
Servir-me dela e aplicá-la com frieza
Pra vaidade vencer por fora
E a vergonha derrotar por dentro

No sarcasmo disparado
Com intuito e alvo certo
Meu medo é que o coração alvejado
Seja bom e maior que o meu gracejo
E me cuspa um contragolpe benfazejo
Temo que o revide, em vez do murro, seja o beijo

No amor,  meu medo é amar de menos
E, também, meu medo é amar demais
Se de menos, sou indiferente
Se demais, subserviente
No amor, em suma, meu medo é errar
Medos à parte, vou amando, assim, sem acertar

Sorriu-me a sorte, de repente
Meu medo, então, é dar de ombros ao azar, subestimá-lo
Desdenhar o azar é reclamá-lo

Meu medo, na dor, é doer mais forte
Depois que a dor passar
E depois de doer mais forte, acreditar
Que a dor que vem depois vem pra ficar

À noite, meu medo é o pesadelo em vigília
A insônia, amada e indesejada filha
Que teima em dormir comigo
Põe espinhos nos lençóis
Inquietação em meus cochilos
E desespero em meus arrebóis

Na vida, meu medo é viver sem navegar
Pois viver é de uma exatidão patética
Viver é preciso, navegar é impreciso
Viver é inércia, navegar é impulso
Viver sem navegar é quase um insulto

Por fim, se sinto medo, meu medo é mais
Bem mais que qualquer medo confessado
No medo, o medo me envergonha de senti-lo
Nele, eu me acovardo e me aniquilo
De medo de que o medo dê-me a paz
De um medo traduzido em “aqui jaz...”.

17/08/2013
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VAIS VER

Entre um gole e outro de sarcasmo
Alertavam-me os velhos amigos mais velhos
Que, por mais velhos, supostamente mais sábios:
- Vais ver, o homem sucumbe aos trinta!
E riam-se dos meus parcos vinte e tantos
Pois hoje, na antessala dos quarenta
Nada vi de que me ressinta
Nada do que disseram que eu veria
Que venham, então, os cinquenta
Meia vida, ainda; meio século
E os sessenta, próximo intento
Vestíbulo das sete décadas
Aí, talvez, precisarei de óculos
Para ver o que me rogaram
Lá nos trinta incompletos
Quando eu não vi por não haver
Mas que, então, hei de querer ver
E entender
Que o homem só sucumbe quando quer.

10/08/2013
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PREVISÃO DO TEMPO

A previsão era de frio
Frio de rebentar os beiços
E regelar as intenções mais picantes
Chuva não; o homem do jornal garantiu
Apenas frio congelante

Dizem que não chove se faz frio
Assim mesmo desconfio
Do que o homem do jornal previu

E não é que veio a chuva
Desmentir o velho teorema
Frio e chuva vieram num arrepio
E caíram como uma luva
Nos versos deste poema.

27/07/2013
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POEMAS DATADOS

Poemas datados
São poemas que fazem aniversário
Sem aqueles festejos fastidiosos
São aqueles compostos
De olho no calendário
São versos que envelhecem
E correm um sério risco
De, um dia, perderem o viço

Poemas datados
São dos tais que nascem em um preciso momento
E marcam este mesmo momento
Com a glória do seu nascimento
Sofrem preconceitos por sua idade
Tenra ou avançada
Conquanto, de sua idade, guardem pouco, quase nada
Guardam, tão-só, a essência do tempo do poeta

Poemas datados
São a marca de um tempo
Que de fato nunca existiu
Senão na lírica interna do poeta
São atemporais
Embora mecanicamente catalogados
Em um tempo que não existe mais

Datei este aqui, como vês
Como já o fizera muitas vezes
Mês julho, dia três
Ano dois mil e treze.

03/07/2013
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O MONSTRO

Chamam-me monstro
Porque envergo e não quebro
Mas sofro
E reajo - não perdoo
Quando dói, eu grito
Se magoa, eu choro
Na ofensa, eu morro

Sou um monstro esquisito
Não violento
Sou violentado
E, mesmo débil, alquebrado
Reajo e me defendo
E por mostro sou havido
Por quem de mim mais sabe
E o meu chão se abre!

Sou um monstro assustador
Eis que sangro escondido
E reajo, e agrido
Mordo, ataco e causo dor
Pra aplacar a minha dor
Até que passe
E ela não passa...

Sou o monstro homem
Uma ameaça acuada
Não dou nunca a outra face
Esta dói já dolorida
E a outra é ferida aberta
Gangrena mal assistida
Podre e fedida

Minha vida
Somos eu e minha sina
De ser monstro
Num atroz conto de fadas
Onde a fada é o monstro
E o monstro não é nada.

25/04/2013
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MÉDIA HARMÔNICA

Entre o espelho e o olhar alheio
Entre o que maldizem e o que eu teimo em crer
Entre um e outro. No meio, então
Entre a praga do inimigo
E a oração do bom irmão
Entre o devir e o que não veio
Entre a fama e o que não consigo
O lá, que não sou, e o cá, que desejo ser
Entre aquilo de que fujo e o algo que persigo
Aquilo de que me privam e o que anseio
Ali, precisamente
Entre um chiste e um sem-dentes
Um tanto triste, outro, contente
Eis-me nu na tensa e intensa crônica
De ser eu. Bem assim, equidistante
Entre o que quero e como me querem

Sou, pelo sim, pelo não
Ante a tudo o que se me refere
A média harmônica
Entre o sacrílego éden de Adão
E o divino inferno de Alighieri.

20/04/2013
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MUNDINHO MAIS OU MENOS

Se aquele que te diz “fica tranquilo”
Desdiz este que alerta “abre teu olho”
Põe logo tuas barbas de molho
Eis que ambos estão certos
Há que se manter tranquilo e sereno
Mas de olhos sempre abertos
Neste mundinho mais ou menos.

23/02/2013
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SE O SILÊNCIO NÃO DER CONTA

E se nem o silêncio te fizer entender
Se nem ele quebrar este gelo
Quem ou o que poderá fazê-lo?
Só o silêncio é capaz de dizer
Tudo o que não foi dito
Por não se saber dizê-lo

O silêncio fala e escuta
Em generosa via de mão-dupla
Não interrompe, tampouco contende
Apenas se faz presente
Ouve e se faz ouvir
De um modo sutil e sincero
Que quase todo mundo entende
Silencio, portanto, e espero...

Mas, se o silêncio não der conta
Não vou gritar nem desesperar
Vou-me embora, resignado e mudo
Pra não voltar
Que além do silêncio, não tenho pra dar
Que aquém do silêncio, tentei de tudo
Que amei, não fiz de conta

Se o meu silêncio não te convencer
Paciência...
Força mais poderosa o fará
Alheia a mim e à minha vontade
E em via de mão única:
A ausência
Cicerone da saudade.

14/12/2012
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BULA

Sabes o poema que eu te fiz
E que não ficou tal qual pediste?
Guarda-o contigo. Algo me diz
Que, quando estiveres muito triste,
Ele te dirá: “tu és feliz”
Nisso, tu te pegarás sorrindo
E então me dirás: “que poema lindo!”
E o triste já demuda em cicatriz.

16/11/2012
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POEMA DE ENCOMENDA

De repente, virou-se ela
E lançou-me o desafio:
- Faz um poema pra mim?
Refaço-me e desconfio
Poema de encomenda?
Como assim?

Um poema que te recite
Que te acolha em seu estojo
Que te rime, te metrifique
Que redunde num verso novo?

Impossível! Tu já és verso
De amizade, de amor e cor
E fazer verso sobre outro verso
É desfazer o que já está pronto
Lindo, bem-acabado e ponto!
Sem o menor nem pudor

Poema de encomenda?
Não faço! Não preciso!
Pois basta que tu sorrias
Pra seres meu poema vivo.

11/11/2012
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O SILÊNCIO DA ARANHA

A aranha
Em silêncio e só
Vomita paciência
E vai tecendo
A sua sobrevivência
Doravante

A aranha
É a metáfora mais elegante
Da autossuficiência.

20/09/2012
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O SILÊNCIO AINDA É DE OURO

Por vezes, penso que calar é deixar dito
Com a força que o falar não o faria
E em vezes, penso que calar é covardia
Mas calo mesmo assim, pois acredito
No alento que o falar não me traria
No ensejo em que o silêncio é mais bonito.

20/09/2012
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POETA DE MENTIRA

Que poeta ordinário!
Faz versos com o dicionário
Usa compasso e régua
Pra corrigir a métrica
E, adivinhem só!
Tem sempre à mão
Um lápis de tabuada
Pra tabular uma rima interpolada
E pobre, do tipo vó com pó
Tenha dó!

09/09/2012
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BRIGAS

Um tapa de silêncio
Uma lufada de indiferença
Um golpe de descaso
Um sulco da tua unha
Na minha pele. Uma fenda
Profunda
Outro tapa: agressão
Na carne e na alma
Disparates disparados
A esmo
Muitos pegam, poucos não

A cólera é já outra
O estrago inda é o mesmo
Gritos, gritos, gritos
E eu aflito, aflito
Silencio: desprezo?
Não, desespero
E medo. Muito medo!
Medo sombra, companheiro

Cala a boca!
Dedo em riste: chega!
Um raivoso, outro triste...
Um pranto úmido e sonoro
O outro mudo e represado
Não dá mais! Aparta!
E o amor? Aquele amor?
Aquele que se foi
Tão forte quanto veio?
Como ficam a flor, a cor, o olor?
Me perdoa. Eu te amo
Eu te odeio.

25/07/2012
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UM SER SÓ POSSE

São minhas as minhas mãos
E meus pés também são meus
Meus pulmões e coração
De quem são, senão só meus?
E meus dentes, minha voz
Seriam, por acaso, teus?
São meus!
Indubitavelmente meus!
Meus joelhos, cotovelos
Meus olhos, meu olhar, meus pelos
Minha ira, meu rancor
Meu sorriso, meus cabelos
Minha calma, minha dor
Minha morte precoce
Minha alma...

E se tudo, portanto, é meu
Quem, afinal, sou eu?
Sou posse.

30/06/2012
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OPINIÃO

É vital ter opinião e defendê-la
Chato é descobrir-se segregado por tê-la
Chato...
Mas risonhamente tolerável!

Quão insuportável deve ser
Não ter opinião. Ou então tê-la
E não poder
Ou não querer mantê-la
E fazer segredo
Por covardia ou medo
Do fatal degredo!

O homem sem opinião
É ser invertebrado
Seja um ídolo, titã ou militar condecorado
E nem é homem, não
É arremedo...

31/03/2012
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ANTONÍMIA

Um relatório; um poema
Um afago; um estratagema
Um beijo; uma ofensa
Um que casa; um que pensa
A estufa ligada; o frio nos ossos
A mais-valia; o ócio!

Um antônimo
Pra fazer valer
Um sinônimo

Um sinônimo
Pra fazer-nos ver
O anônimo.

19/02/2012
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ANTES DE TI

Quero sangrar antes de ti
Para prevenir-te do que senti
E ensinar-te o estancamento
Que, na sangria, aprendi

Quero cair antes de ti
Para entender de tombo e de erguer-se
E segurar-te, caso tropeces
Mas, caso caias, saberei, já de antemão
Estender-te a mão
E resgatar-te do chão

Quero sentir medo antes de ti
Tanto medo de não mais temer
E saber suplantar o pavor
Que certamente hei de sentir
Quando tu, ao sentires medo
Buscares asilo em meu destemor

Quero chorar antes de ti
Para entender que, quando choras
É a tua alma que me grita
Reprimida, malsofrida, aflita...
E que unicamente com a alma poderei ouvi-la
E compreendê-la
E confortá-la

Quero sofrer antes de ti
Só para provar da dor
Que não te quero fazer sentir

Só não quero, ao cabo de tudo, morrer antes de ti
Para que jamais aconteça
De sofreres revés e eu não estar aqui.

17/12/2011
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FARDA

Não me venham com sonetos
Falas-finas, madrigais
Nem, tampouco, com agouros
Vaticínios e que tais
Não me comovo mais
Nem tenho medo

Meu couro já está curtido
Duro, espesso, doído
Minha alma, impenetrável
O olhar, vitrificado
Os sentidos, insensíveis
E os punhos, cerrados

A vida é assim:
Leva a poesia
Prescreve a analgesia
E farda-nos para viver
E para morrer, um dia.

11/12/2011
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CAPITAL X TRABALHO

Somos títeres
Nas mãos de déspotas
Dão-nos víveres
De boa ingesta
E segue a festa
A nós: pão e circo
A eles: tudo o que resta.

02/11/2011
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COISAS

Se as coisas não vão bem
Ao menos elas existem: as coisas e seus devires
Pois, se nada mais existir para ir ou vir, mal ou bem
Aí, as coisas vão mal, mesmo. Muito mal...
Sabê-las e senti-las indo ou vindo
Mal ou bem
É - como as coisas - existir também.

28/10/2011
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PRATO FRIO

Serviram-mo frio
Sem acompanhamentos
Salvo a tristeza e a culpa
Meus cruéis circunstantes

Queria-o quente, agora
Muito embora
Outrora
Quando me servido quente
Não o tenha sabido apreciar a pleno

Queria-o quente
E corresponder à quentura
Com toda a candura
De que nunca dispus

Nunca o tinha pensado frio
Sempre serviram-mo quente
E quente fazia-me bem
Quente, era-me o alento
A referência subjacente
O mais nobre sustento
De quem, em pleno vôo
Alçado faz muito
Sabia-se, ainda, mero rebento

Serviram-mo frio
Caiu-me indigesto
Passei muito mal
Confesso, chorei

Não há mais o ninho
No qual fiz-me homem
No entanto, resta o legado
De amor e carinho
E de ser quem eu sou

Serviram-mo frio
Nem vinhos, nem pães
Apenas, tão-só
O corpo da mãe.

07/10/2011
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TIRANA

Diz-me, ela, que me ama...
Mas põe-me num buraco
E vai juntar seus cacos
E ofertá-los a quem reclama

Diz-me, sempre, que me quer...
Mas me trata a ponta-pés
E não arreda o pé
Daquela outra cama

Faz-me crer que me adora...
Mas me joga sempre fora
Pra que eu não estorve
A paz da sua tirana

Lá fora, eu choro
Aflito
Lá dentro, imploro
E grito.

07/09/2011
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RECAÍDA

Sei que não posso
Compreendo: não devo
Mas, hoje, só hoje
Eu me permito
Pois hoje eu mereço
Hoje eu preciso
Se quiser - mas não quero -, eu evito
Eu é que sei de mim e do preço

Engano-me somente a mim
Com esse ardil
Sofisma vil
No qual nem eu acredito.

16/07/2011
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SÓ ME RESTARAM MEUS SONHOS

Meus sonhos vão além de mim
Muito além do meu alcance
Logo, não convém alimentá-los
Mais que o tirano a seus vassalos
Eis que são inalcançáveis
Eis que são inacessíveis
São, sim, irrealizáveis!
Mas, de fato, são incríveis
Belos, memoráveis
Cultivo-os um a um, qual flores
Rego-os todo dia
Parcimoniosamente
Para que não cresçam em demasia
Água na mais justa quantia
Para que não morram, somente
Mas, também, não sintam dores
Converso com um e outro
Dia sim, noutro também
Para que se saibam sonhos meus
E jamais de outro alguém
Para que se entendam sonhos
Nada além
E que não nutram rancores
Por quem
Quer-lhes somente a si, como a um bem

Eloqüência e pouca água
É a dieta que os imponho
Sonho meu não vinga
Sonho meu não brinca
De transcender, de ser real
Não reclama, não chia
Não me afronta
E não deixa de ser sonho
Por destino ou teimosia
Não desperta, não desponta
Não me deixa em desamparo
Enfrentando a realidade
A sós
Sem sonhos
Sem vida
Na saudade...

Sonhos meus são sempre sonhos e sempre meus.

17/06/2011
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POETA ARROGANTE

Curioso, isso de ser poeta
Curioso e intrigante...
Dia desses, vi poesia numa garrafa térmica!
Outro dia, pessoas de maus-semblantes inspiraram-me bons-versos
Já despertei, sobressaltado, no meio da noite, com estrofes inteiras chacoalhando-me na cama
Ignorei os eventos, um a um, com indiferença e soberba
A poesia se oferecia; eu a desprezava
Afinal, sou poeta - pensava
Sou sujeito, e a poesia, objeto, que não existe, senão por mim

Hoje, descobri que existe, sim...
E, pelo visto, não quer mais saber de mim
Eis que a reclamo, desesperadamente
E ela me ignora, solenemente.

16/06/2011
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DICOTÔMICO

Quando eu gosto, eu amo
Se desgosto, odeio
Sou assim mesmo e não me acanho
Dois extremos antagônicos
Sem nada no meio
Sou dicotômico

No meio vinga o irônico
O dissimulado, o hipócrita
O meio é e não é
Convive com lá e cá
Num torpe balé
Não se define, acovarda-se
Não manifesta, cala-se

Não me acovardo: se gosto, amo
Não me calo: se desgosto, odeio
Assim me autoproclamo
Aos brados e sem receio
De melindrar seja lá quem for
Sou a tese e a antítese
Sem o menor compromisso com a síntese
Não a anseio
Sou dois pólos que se repelem
Sem pudor
E sem nada no meio.

26/03/2011
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SONETO DA TRAIÇÃO

Sempre me agigantava em teu desvelo
Seguro nos teus muitos braços fortes
Mas, hoje, pude ver, sem querer vê-lo
Teu mais cínico ato, sem recortes

Amei-te de um amor cego e inocente
E fiz desta paixão brioso escudo
Por nós, fiz-me, na guerra, combatente
Injuria a teu respeito!? ALTO! CALUDA!

A sós, sabia bem, não era nada
Portanto, quis-nos juntos, e rumamos
Até que me expurgaste em meio à estrada

Em nome de algo que não conclamamos
Traíste-me. O amor não deu em nada
Tomaste o descaminho. Onde é que erramos?

09/07/2010
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AS RAZÕES DA EMOÇÃO

Na contramão da razão
Repreendeu-me a emoção:

Não!

Não sou cérebro, sou coração
Não sou para algo, sou em vão
Não sou bom-senso nem ponderação
Respeita a minha condição!

Sou heresia, não oração
Sou poesia, não equação
Sou boemia, não profissão
Não sou o dia, sou inspiração
Não sou saber, sou intuição
Sou desatino
Ora, sou emoção!

Constrangido, disse-lhe eu: tens razão.

01/01/2010
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LIRALGIA

Sem dor não há poesia
Não se tange o verso
Na analgesia:
Contexto adverso à poesia

Tens felicidade, alegria?
Esquece a lira, então
Que suas cordas soam
Tão-somente na prostração.

30/05/2009
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O ÚLTIMO INACESSÍVEL

O último gole guarda uma tristeza incomum
O derradeiro sorvo traz consigo a despedida mais triste e melancólica
Então, faço do último, o penúltimo
E deste, um providencial antepenúltimo
E, assim, enfileirando doses extremas, vou-me embriagando às escâncaras
Até que o derradeiro hausto
Faça-se o primeiro, leve e fausto

Rio, às ocultas, minha mais comprida gargalhada alcoólica.

10/03/2009
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ANTIPOETA

Não sei por que escrevo
Sinceramente, nem gosto tanto assim de fazê-lo...
Escrever dói, cansa, agride por dentro
Faz refletir, e o que vemos, invariavelmente, não nos agrada
O que realmente me fascina neste solitário ofício é o seu fim!
Seu derradeiro momento, seu adeus - ainda que temporário
Ah... Concluir um escrito! É o êxtase infinito!
Relê-lo tão-logo o tenha terminado
E não realizar reparo algum, posto que desnecessário!
Pronto, completo e acabado
Palavra por palavra, verso por verso, ponto final
Finda a tortura
É hora do gozo - não o de escrever!
Mas o de não ter mais de escrever por algum tempo
Neste ínterim entre um e outro escrito jaz o meu prazer de escrever.

30/01/2009
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POETA FOLGADO

Nasci para o ócio
Que baita negócio!
Sem chefe nem sócio
Vadiagem congênita
Meu vício e ofício

Que posso eu fazer
Se o meu proceder
Não cheira a virtude?
O que se há de fazer?
Eu fiz o que pude

Roubar não me apraz
Nem gozo de posses
Tanto quanto pensas
Viver às expensas?
Perfeito! De quem?!
Neste vai-e-vem
Tornei-me poeta!

Perdoa este errante
Sem norte nem meta
Avesso ao labor
Operário do verso
Poeta do amor
Poeta da dor
Poeta, portanto
De todo o universo.

22/01/2009
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O INFERNO É AQUI

Não te iludas
O inferno é aqui!

O odor fétido que sentes, vez por outra
Morno, denso e nauseabundo
Exalando angústia e aflição
Nada mais é que o hálito do diabo
Que aspiras com sofreguidão (ingenuidade e fé)
No compasso da mais pueril oração

Não te iludas
O inferno é aqui!

E estes urros lancinantes
De graves e agudos dissonantes
Que te vêm, amiudados
E rebentam teus ouvidos
São conselhos do diabo
De satânica sapiência:
"Não pratiques a oração
Nem, tampouco, boa-ação
Que de nada valerão
Pois o inferno é aqui!"

Não te iludas
O inferno é aqui!

E este peso opressivo sobre os ombros
Este gelo que atravessa o coração
Este abraço de tantos braços, que imobiliza e sufoca
Esta sombra que te vela noite adentro
É o olhar oculto do diabo (a fagulha no breu)
Derramando-se sobre ti
Real e cru
Embora o suponhas, não o crês

Não te iludas
O inferno é aqui!

E as dores
Os rancores
Desamores
Despudores
Maus-humores
E as dores
E as dores!?
É o inferno, ou não, aqui?

Não te iludas
O inferno está em ti!

17/01/2009
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OLHARES

Intriga-me teu olhar circunflexo
Teu olhar agudo perfura-me a carne
O teu olhar grave - o mais desconcertante
Gela-me o sangue e faz-me mudo
E calo-me em silêncio lancinante

Teus olhares pontuam minha existência
Ora com torturantes interrogações
Que demandam exclamações várias e aflitas
Não raro, reticentes, dissimuladamente átonos
Pondo-me um derradeiro ponto final.

22/12/2008
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MEU AMIGO

Amou, um certo dia, de odiar
Amou, tempos depois, de desamar
Amou, outrora, de não amar
Por fim, agora, amou de amar

Amor sem preço, sem cabresto, sem lugar
Amor de, em não buscando, deparar
Amor sofrido, escondido, quase arrependido...
Arrependido?!
Qual o quê!
Não amar é que é sofrer
Não amar é que é esconder-se
Não amar é arrepender-se!

Assim sendo, amou
E ama
Decididamente
Dignamente
E apaixonadamente

Felizmente.

07/10/2008
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MUNDO EU

Odeio o mundo de adorá-lo, quase
Odeio-o de venerá-lo ao avesso
É-me gratuitamente hostil
É-me injusto, iníquo
E sufoca-me, aprisiona-me
Por certo, sou-lhe indigesto, também
Contudo, sou-lhe hóspede por tempo indeterminado - e isso deve aborrecê-lo
Sou inconveniente hóspede de um mundo inóspito
Por fim, descubro-me hóspede de mim mesmo

Meu mundo sou eu, tão-somente
Posto que, sem mim, para mim, não há mundo
Odeio-me a mim mesmo, no fundo

Odeio-me de adorar-me, quase.

15/09/2008
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O FIM DO POETA

De tanto fazer versos
Transcendeu e virou metáfora.

29/08/2008
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VERGONHA

Tens coragem de encarar
Este que ora te encara?

Olhar-me olho no olho
Frente-a-frente, cara-a-cara?

Não me consegues enfrentar
Pois a coragem é-te rara

Usaste-a pra me deixar
No momento em que te conviera

Agora, acovardas-te! Ora, pudera!
A vergonha estampa-te a cara
E a coragem já era.

27/07/2008
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GURIA

Rio-me no teu riso
Alegro-me na tua alegria
Choro no teu pranto
Sofro na tua agonia
Não vivo, senão nos teus dias
Na tua insanidade, eis-me louco!

Nunca pensei ser-me tão pouco
E ser-te tanto, um dia.

19/07/2008
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PERGUNTAS

Toda pergunta de fácil resposta
É uma bosta!
Boa é a pergunta que atormenta e maltrata
E não tem resposta imediata.

28/06/2008
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DESCOBRIR-SE NO TOMBO

Da alma, restou o escombro
Do orgulho, restou nem sombra
Do homem, restou o espectro
Do homem que nunca fora

E o homem que surge agora
Despido de empáfia e pompa
Frente ao medo, dá de ombros
Por autêntico, não tomba
Descobrira-se no tombo

Quedou-se por elevar-se
Além da sua estatura
Ergueu-se por desnudar-se
Da desbriosa armadura

O homem, sendo ele mesmo
Se cai, não o faz a esmo
Tomba em riste, já pressentindo
O descobrir-se no tombo
O reerguer-se sorrindo.

28/06/2008
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EQUÍVOCO

No prenúncio do beijo
Face a face, pálpebras já cerradas
Todo o sentimento que o beijo encerra
E a expectativa de algo mais que o beijo

No beijo, o beijo, tão-somente
Reduzido a franca permuta de fluidos, vírus e bactérias
E constrangidos bateres de dentes

O beijo não mente.

31/05/2008
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CAFÉ COM BANDEIRA

Uma xícara de café preto
Bem quente
Bem forte
Bem doce
E um poema de Manuel Bandeira
Bem quente
Bem forte
Bem doce

Para bem apreciá-los
Degusto, verso a verso, o poema
Desvendo os signos do café

Este instante é minha Pasárgada.

06/05/2008
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HOMEM

Expeliram-me
Não nasci
Jamais fui feto
Sou dejeto
Excremento nascituro
Sou gente, humano, impuro
A vileza com o máximo de apuro

Um altivo cão de rua me observa com desprezo.

03/05/2008
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POEMETO MANCO

Sentei-me desconfortavelmente e pus-me a escrever
Há que se frisar:
Desconfortavelmente
Pois escrever é flagelar-se
A começar pela postura
E pela cadeira dura
E, do desgosto, fazer catarse

A idéia era um poema de amor
Um soneto, talvez
De verso heróico e branco
Mas - deduzo! - ficta e branda foi a dor
E pari isso que vês
Um poemeto manco

Farei-o de pé, na próxima vez.

03/05/2008
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DESABAFO DO PRESUNÇOSO

Perdoa-me, senhora
Minha tosca presunção
Mas foi o que deu pra presumir
Ante ao que me trouxeste à razão

Como, à França, hei de ir
Se me indicas Paquistão?

Conclusão:
Quem padece deste mal - a presunção
És tu! Não sou eu, não.

19/04/2008
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PROCURA-SE

Verbo, por que me faltas?
Por que te escondes, indiferente, no pretérito?
Bem sei que, lá, já foste mais-que-perfeito
Mas careço-te cá e adiante
Quero-te no presente de meus versos
E no futuro de minhas inspirações
Suplico:
Conjuga-te no meu tempo novamente!
Sê flexível, flexiona-te, como outrora, na minha frente
Se me privas de teu beijo, não sou poeta
Sou gente
Tão-somente.

13/04/2008
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POETA RASO

Entrevejo-me a mim mesmo com desdém
Sei bem
Sou poeta raso
Mas que poeta de boa cepa não tem
Mal ou bem
Com cada verso seu - ainda que tosco -, um lindo caso
Dedicando ao verso alheio - ainda que belo - um ínvido descaso?

23/02/2008
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RASGO

Ridicularias: tua mais adorável ração
Tua peçonhenta iguaria
Combustível de tua arrogância!

Fazes-te maior, não por assim o seres
- não o és! -
Crês-te maior
Encolhendo o alheio
Zombando o díspar
Enxovalhando o estranho
E nesta infame relação engendrada no âmago dos teus azedumes
Pateticamente entressonhas
E tens-te por superior, instância máxima de ser
E acalentas, destarte, tua alma negra

Negra de um negrume baço e carrancudo
Amargo e triste...
Negro ausência
Estampado na face
Mas talentosamente encoberto por tuas pulhices
E ironias cáusticas

No entanto - que aptidão! -, ridicularizas!
Aviltas para sobressaíres-te
Tudo e todos são vis
Tudo e todos são néscios
Tudo e todos são meros engodos de existência
E neste teu vão passar
Teu passatempo é a ridicularia
Tua vitamina, teu néctar...

...e tua cicuta.

Ridicularizas!
Ridicularizas!
E passas
Sem dares-te por conta
O quão ridículo é o teu tosco passar
Mero rasgo mal-cerzido.

23/02/2008
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LUCIDEZ

A lucidez, de regra, turva-me o pensar
Lúcido, não penso apenas
Transgrido em devaneios!
Penso, repenso
Sopeso, conjecturo, pondero
Desfaço, reconsidero...
E enlouqueço!

Enlouqueço de pensar além de mim
E, excessivamente lúcido
Descubro-me muito aquém
De mais ninguém
Senão de mim também.

20/02/2008
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VIRABREQUIM

Secou-me novamente o verbo
Apronta-me de novo das suas, este moleque
Travessura, esta, da sua maior predileção!
Estou árido e infértil lexicamente

Entrevejo-me, frente à tensão de criar
Diante do desejo de um simples rabiscar poético
Absolutamente alírico

E estes versos ralinhos e insossos que então lês
São cactos que relutam e resistem, boquissecos
E espetam-me, insistentemente
Seus espinhos pontiagudos de afagos lancinantes
A lembrar-me, a todo instante
Que cá nest’alma, ora estéril, desértica
Ainda gira explosivamente
O inquebrantável virabrequim do lirismo
Que só deixa de girar
Quando o mundo assim também o fizer, derradeiramente, para o poeta.

14/01/2008
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ALENTO SEM SENTIDO

Dei-me, então, por conta
Confesso, com largo espanto
Que minha vida sem sentido
Mescla de dor e pranto
Farta de entretantos
Faz sentido, no entanto!
E o sentido de que falo
É justamente o dessentido
É não ter sentido algum
É viver sem ter porquê

Regozijo-me ao saber
Que o sentido do meu ser
É nenhum!

03/01/2008
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ININTELIGÍVEL

Se tivesse eu nascido
No instante em que nasci
Talvez não tivesse sido
Isso que não escolhi.

26/12/2007
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RABISCO

Não o li de pronto
Tampouco o folheei compulsivamente
Como muito já o fizera em outras ocasiões
Apenas o pus cuidadosamente na estante
Bem ao alcance de minha vigília
Sentei-me e o fiquei observando respeitosamente
E, intrigado, questionei-me:
Serei digno do desfrute de tão grandiosa obra
Ou, tão-somente, merecedor de tê-la precisamente assim, na estante
Feito bibelô a adornar minha sala e impressionar visitas?
Melhor seria se a tivesse escrito...
E, envergonhado, pus-me a rabiscar este poema.

16/12/2007
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BREU

Possuía vivos olhos glaucos
De um verde-azulado oceânico
Trazia o mar naquele belíssimo olhar
Um dia, ocorreu-lhe de amar
Amou muito, porém, sem recíproca
Sofreu muito
Chorou muito
E tal foi o pranto
Que o mar secou
Seu olhar enegreceu
E o amor morreu
Hoje, não se vê mais o mar nos olhos seus
Vê-se o breu...

07/12/2007
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VIDA EM VERSOS

Escrevo como quem vive
E faz viver
E cada verso, ao vir-se à luz
Aparta-se do poeta e voa
Em busca da sua rima perfeita
Mesmo que branco

Escrevo como quem goza
O gozo que só o escrever nos dá
É o indescritível prazer solitário
Compartilhado pós-gozo
Com todos que sabem
Da arte do bem-gozar

Escrevo como quem bebe
E delicia-se a cada gole
Cada verso, mais um gole
E na embriaguez
Cuspo longe o nó da garganta
E o poema flui sem censura
E sincero
E sensível

Escrevo como quem chora
E na lágrima põe pra fora
Tudo o que há de mágico
E o que há de trágico
E este orvalho d’alma
Amanhece-nos
E alvorece em versos

Escrevo como quem cai
Pois o verso coxo e débil
Ao quedar-se
Levanta-se outra vez
Com mais vigor e sabedoria
E demuda-se em nova poesia

Escrevo como quem sangra
E faz do sangue, nanquim
E o nanquim municia a pena de ouro
Que rascunha n’alma:
“Cura-te...”

Escrevo como quem sofre
A dor do não escrever
E esta mesma dor alimenta o verso
E o dá de comer
E então o sofrer de não escrever
Transmuda-se em sofrer de escrever

Escrevo como quem morre
E cada último verso
Talvez seja um patético
E melancólico balbuciar de adeus

Escrevo, enfim, como quem tão-somente escreve
Mas, ao fazê-lo
Vive
Goza
Bebe
Chora
Cai
Sangra
Sofre
Morre.

02/12/2007
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O COMUM DE NÓS

Levanto
Canso
Caio
Descanso

Levanto
Canso
Caio
Descanso

Levanto
Caio
Levanto

Caio
Descanso...
Eternamente.

27/11/2007
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O COLÓQUIO QUE RESTOU

Demoras-te! Por quê?
Serei indigno de tua ilustre visita?
Não tergiverses! Violentar-te-ei – sou bem capaz! – num ignominioso ato suicida!
Mas... Perdoa o descalabro
O convite é sincero, crê
A ameaça, puro desespero. Ignora-a
Vem! Preciso-te...

Quero-te viva e efetiva neste meu trôpego vagar
Mas atentes, quero-te derradeira e extrema
Um extremo de turvar a luz mais branca
Repelir as flores com seus nauseantes perfumes
Evacuar amores – exceto o nosso! –
Amputar sorrisos e acinzentar cores
E um derradeiro
De varrer restos e resquícios de existência

Quero-te desesperadamente!
Sinto-te próxima, pousando-me teu olhar demorado e perscrutador
Pressinto tua estocada fatal e tua ânsia por desferi-la, tão logo possas
Mas és toda ímpeto contido!
Neste ensejo, sonho em roubar-te um beijo
Que sufocasse, asfixiasse, desfalecesse...

Sentes meu desejo?
Percebes que te amo tanto quanto me amas?
Que inspiro o ar que expiras?
Que urro enquanto te calas?
Então, por que te negas a quem humildemente te reclama?
Vem e arranca-me da vida!
Envolve-me com teu véu negro, cerzido de trevas, encharcado de mortes
Engole-me avidamente e resgata-me deste arrastado definhar
Não vivo, tão-só existo
E existir é martírio dos fracos
E virtude dos patéticos
Sou pateticamente fraco: conto contigo
Comisera-te de minha dor, mas não a ponto de poupar-me
Não te esquives do teu único e nobilíssimo mister
Vês minha vida? Vês?
Ah! Se isto é vida, quero a vida pós-vida
A vida em morte em vez da morte em vida
A vida baça e mórfica
A não-vida
A morte
Bem-resolvida.

14/11/2007
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AUTO-RETRATO

Sinto cheiro de gente
Sempre que vou aos pés
O que eu julgo que sou?
O que tu julgas que és?
Fezes!
Dejeto dos deuses, somente
Tudo aquilo que lhes é mais impuro
Expelido sob a trágica forma humana
A mais repulsiva de todas as formas
Somos apenas excremento dos deuses
Embora arroguemo-nos condição maior
A de supradivinos, além-deuses
E o cheiro fétido de gente
Sempre que vou aos pés
É o próprio perfume da humanidade
E sua patética supradivindade suposta
Revelada num melancólico e mal-cheiroso auto-retrato.

01/11/2007
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POESIA DIFERENTE

É uma poesia diferente, realmente
Daquelas que perturbam a mente
Não se sabe se o verso se ressente
Se mente
Se desmente
Se sente medo da gente
Percebe-se, tão-somente
Um dessentido surpreendente
E, no entanto, sentido há, entrementes
O verso é leve
A letra é breve
Mas algo pesa
Denso e tenso
E comove eternamente
Tanto pra quem escreve
Penso
Como pra quem sente
Vê-se, então, de repente
Que se trata, realmente, de uma poesia diferente.

28/10/2007
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PALÁCIO SEM RAINHA

No ventre da forma mais sublime, o conteúdo perece
Insurge-se, indócil, mas padece
Posto que em inabitável guarida

A forma domina a essência
Erijece-a, artificializa-a
E predomina
E o conteúdo esvazia-se
Sem viço para tocar-nos a alma carente
Ávida de poesia
Tampouco forças para romper a métrica masmorra
Rígida, fria e vazia

O majestoso palácio está órfão de sua rainha.

24/10/2007
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AUTOPERSUASÃO

Persuadi-lo, hei de já
Mas careço, de antemão
De outra dose cavalar
De minha autopersuasão.

18/10/2007
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O POETA QUE TERIA SIDO

Hei de morrer cedo
Para honrar a sagrada escrita
De que a obra não escrita
Supera, de longe, a realizada
Que é falha, posto que viva
Pífia e mal-acabada

E então, serei, desencarnado
Poeta maior, grande bardo
Parasita do poema que não escrevi
E de tudo aquilo que não fui
Mas que teria sido
Se não tivesse morrido
Tão cedo...

A morte eleger-me-á
Versejador elegante
Respeitado por público e crítica
Amado por meus versos natimortos
E assim, o poeta dos versos tortos
E inspiração raquítica
Será sumariamente esquecido
Dando lugar ao poeta do verso não concebido
Serei, então, o poeta que teria sido
Se não tivesse morrido
Tão cedo...

Revelar-te-ei um segredo:
O poeta que teria sido
Se não tivesse morrido
Tão cedo
Punha-me medo.

17/10/2007
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HETERÔNIMOS

Um dia quis ser Ricardo
E Campos. Essa foi boa!
Caeiro, tem dó: perdoa
Nem trago pendor pra bardo
Nem bem chego a ser Leonardo
Tampouco serei Pessoa
Por mais que o não ser me doa

- Sossega-te!!, diz Bernardo.

13/10/2007
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SOMOS DEUSES DE NÓS

O universo só existe ante a minha percepção
O meu universo só existe ante o meu parco existir
Pois, em não havendo percepção
Impossibilita-se o percebido
E nada mais há
Senão os demais inumeráveis universos
Por outras várias percepções concebidos

Cada ser é um universo particular
Cada morte é a extinção de um universo
E a nascença, novo mundo a vicejar

Portanto, somos deuses de nossa existência
Pois, ao enfastiar-me as coisas como são
Basta que as perceba com nova referência
Para transmudar-se meu universo, desde então.

13/10/2007
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BÁLSAMO POEMA

Tremo quando temo a solidão
Mas lembro-me da pena na minha mão
E vem em meu conforto o escrever
Pois, tão-somente esse prazer
Faz o medo estremecer
O estar só bastar-se a si
E demudar-se tudo em poesia

Hão de perguntar-me como pude
Extrair versos lenitivos
Em meio ao temor da solitude

Hei de responder-lhes prontamente
No dia de estar só eternamente
De versos forrarei meu ataúde
E medo, então, não mais se sente.

08/10/2007
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DOR ALHEIA

O poeta tatua no próprio corpo toda a dor do mundo
E nos versos entalhados em sua epiderme
Sentimos dor sem nos doermos
Posto que em pele estranha

Mas não pertence ao poeta dor tamanha
Ele apenas dela compartilha, inerme
E, amiúde, ao usufruirmos seus versos, indiferentes
Sentimo-nos fisgados, estranhamente
Pelo pontiagudo anzol da dor alheia
Que, a bem da verdade, há que se leia
Nada mais é que a dor da gente.

29/09/2007
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LÁ DE CIMA

O crânio beijou a pedra
E fez-se pedra

O corpo abraçou o solo
Seu irremediável fim
Seu ataúde inevitável

Os órgãos, há muito maltratados
De cânceres, enfisemas
Úlceras e cirroses
Amalgamaram-se num pasta indefinida

E a alma alheou-se de tudo
E assistia a tudo
Sem nada compreender

Há segundos, tudo lá embaixo era tão pequeno
Microscópico
Neste instante, tudo é gigantesco
E a cidade me engole sem mastigar

Vomitar-me-á, por indigesto
Tal como me fez a vida
Expelindo-me sem dó, tampouco apuro

Ajudei-a na derradeira golfada, com o dedo.

05/09/2007
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NÃO FARIA DIFERENTE

Se de um ponto inicial
Refizesse o que se deu
Ser-me-ia tal e qual
Pois, senão, não era eu.

01/09/2007
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UMA CIDADEZINHA HÚNGARA

Para uma criança de ainda poucos passos
Tempo é espaço
E nas minhas reminiscências infantis
As altas horas
Eram-me tão distantes quanto uma pequena cidadezinha húngara
(na minha infância, a Hungria soava-me de uma lonjura inalcançável...)
As horas adultas eram-me inacessíveis
Dadas as quase vespertinas visitas do sono, implacável e pontual
Então, a simpática cidadezinha húngara
Lá permanecia: simpática, pequena e vazia
Enquanto eu dormia

Todavia, em raros momentos
Eu subvertia o tempo, o espaço e as coisas
Nessas molecagens de criança inquieta
E despertava, num sobressalto inconscientemente intencional, em meio às horas mortas
Que, para meu pueril espanto, revelavam-se tão vivas quanto as vivas
E lá estava eu, uma estranha criança
Com os olhos pesados, contudo atentos
Numa estranha e pitoresca cidadezinha húngara!

Tudo era tão intrigante e diferente:
As pessoas eram as mesmas daqui, mas faziam coisas diferentes
E falavam muito alto
Deveria ser da cultura húngara o hábito de falar alto, ponderava
A luz da sala era mais amarela e quase me punha cego
A televisão gritava-me sons lancinantes aos ouvidos
Numa programação, pressupunha eu, húngara, de tão incomum
Na estante, o relógio marcava uma hora estranha
Nunca havia visto seus ponteiros em tão bizarra posição
Mas era o mesmo relógio, porém com excêntricas feições
Tudo me assustava... e, curiosamente, fascinava-me!
E queimava-me a retina

Mas aquela fantástica visita
Àquela inolvidável cidadezinha húngara
Era de um efêmero desconcertante
E, de súbito, vinham-me inumeráveis grãos de areia aos olhos
Arremessados impiedosamente pelo sono, aos punhados
- fartos punhados! -
E eu era arrastado de volta, contrariado

A alvorada trazia consigo o despertar
E a saudade da cidadezinha húngara

Hoje, não mais existe a Hungria
E todas as horas são mortas
E fugidias.

30/08/2007
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VERSO ÓRFÃO

Que será de ti, meu verso vão
Desprovido de sentido
Se aqueles que te lerem com a razão
Forem incapazes de o fazerem com a emoção?
Compreender-te-ão? Duvido

Serás, tu, sem serventia
Mero capricho de um poeta
Que, tolo, ambicionou-se poeta, a revelia
Do lirismo que não possuía

Tu, verso vadio
Nu, controverso e vazio
Nasceste pra ser tocado e sentido, sem intermédio
E, jamais interpretado
Tal bula de remédio
Que chateação!
Ou manual de instrução
Quanto tédio...

Todavia, alvíssaras parnasianas acalentam-me
Advindas d’algum ponto da Via Láctea
Pois, se só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas
Estes mesmos têm candura de sentir poesia
Alma de apreciá-la e empatia de entendê-la
E meu verso órfão, por fim
Encontrará guarida, assim

Verso meu, flerta com os que amam
Pois só estes te entenderão
E, assim, o devido valor, por certo, dar-te-ão.

22/08/2007
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POEMINHA SOBRE O TEMPO

Comemoro, agora, o completar de mais um antes
Que também fora, outrora, comemorado como agora
E num átimo, hei de festejar mais outro agora
Oriundo de seu antes, que é agora
Celebro hora sobre hora
Instante após instante
Pois sei que o agora é eterno
O antes, efêmero
E o depois, inconstante.

18/08/2007
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HORAS MORTAS

Perambulei, de crepúsculo a aurora, pelo corredor sem portas da insônia
E nestas horas ditas mortas, repassei minha vida
Colhi, desta insone retrospectiva, mais orgulhos que vergonhas
Revi méritos muitos, desonras poucas
Dei-me conta de fartos altruísmos
Permeados por raros egoísmos
Muito servi e pouco fui servido
Elogios e reverências angariei, contraponteados por mínimas repreensões

Vê que vida escorreita!
Olha que imácula existência!

Porém, herdo desta conta
Largos prantos e constrangidos sorrisos
Amargos desgostos
Regozijos vãos
Escassas realizações, abundantes decepções
Um revés de vida de um espectro de ser

A prova e a contra-prova, escarradas na face
De que viver não é passar
E que supostas horas mortas prescrevem-nos - urge! - horas mais vivas.

08/08/2007
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ESCOLAS

Meu poema tem, sim, forma
Mas sua alma é anarquista
Parnasiano, te conforma!
Não te ofendas, modernista.

08/08/2007
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PRAÇA DA ALFÂNDEGA

Se Quintana e Drummond
Rabiscassem um poema
Bem composto, a quatro mãos?
Decifrai este teorema!

08/08/2007
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DEI UM PORRE NA ANGÚSTIA

Com extrema e sutil argúcia
Sem que sequer suspeitasse de meu ardil
Dei um porre na angústia!

Sentara-se ao meu lado - impertinente
E abraçara-me apertado
Fingindo-se aliada
Deste ébrio abandonado

Tocava-me com o gelo de suas mãos hábeis
Com a destra, acariciava-me o dorso da mão vazia
Com a sinistra, esmagava-me o coração implacavelmente

Nisso, ofereci-lhe o copo, quase cheio
Derramando-se de dor e embriaguez

- Aceita! Far-te-á sentir melhor

Entornou-o de um só gole
Sugeriu-me um brinde.
Outro copo. Outro. Outro. Outro...
Por fim, mão frouxas e vadias
Irrigadas de álcool e sangue quente

Dei um porre na angústia!
E adormeci sozinho
Impassível e aliviado.

04/08/2007
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INCOMPLETUDE

Sou fraco. Sinto saudades...
De tempos idos
De idas idades
Que nem foram, assim, tão melhores
Tampouco pouco piores
Mas, como já disse
Sou fraco
Sinto saudades...

Completo-me nesta complexa incompletude.

30/07/2007