segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A ÚLTIMA MORTE

Meia-tarde macilenta de verão
A cama me agarra com uma força que eu não supunha
Agarra-me com todos os seus dentes e unhas
E eu morro noutro sono

É vã a luta contra a modorra
A cama tem braços fortes
E lá vem outro sono febril
E vem lá outra morte

No sono, um sonho
Onde, sei lá por que forças
A cama não me faz frente
Arranco-lhe as unhas e dentes
Transformo os grilhões em pó
Humilho essa cadela
Sou mais poderoso que ela
Que sucumbe nesse entrementes

Mas, no mesmo leito, desperto
E, mal tento pôr-me de pé
Uma dama inebriante vira-me areia nos olhos
Cansaço nos movimentos
E ópio nos pensamentos

Eu não luto mais, acato minha sorte
Só busco, agora, a paz
Do último sono, sem sonhos
Da última morte, sem cortes.

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