terça-feira, 15 de agosto de 2017

VIVA A DIFERENÇA!


Tempos difíceis, os atuais, não? Estamos escrevendo uma página assustadora da nossa história. A sociedade brasileira esta protagonizando um dantesco espetáculo de intolerância, ódio e preconceito que se alastra país afora - e rede social adentro - feito rastilho de pólvora. E o grande catalisador destas ações e reações despropositadas é aquilo que de mais rico e bonito possui o ser humano: as suas diferenças.

Aquilo que faz do ser social, um ser único, do ser coletivo, um ser individual, está pondo-nos em guerra com nós mesmos. A sociedade neofascista que estamos construindo nos está colocando em violento antagonismo com tudo aquilo que não somos nós, com o outro, com o alheio, com o diferente, em síntese. O confronto é de pessoas, não mais de ideias, opiniões ou pontos de vista. Então, o diferente é declarado inimigo mortal.

E o patológico deste comportamento é as pessoas acreditarem piamente que o diferente não é apenas diferente, é inferior, e, em assim o sendo, merece o meu desprezo, a minha repulsa e até mesmo o meu mais feroz ataque – o fascismo na mais pura essência. Esse comportamento doentio, cuja natureza remete-nos às mais delirantes aspirações hitlerianas, põe em pé de guerra brancos e negros, ricos e pobres, magros e gordos, homos e heteros, mulheres e homens, nortistas e sulistas, estrangeiros e nativos, conservadores e progressistas, católicos e protestantes, cegando-nos para o mais importante: somos todos da mesma raça, a raça humana.

E qual seria a causa deste comportamento que se alastra com a desenvoltura de uma epidemia? Lamentavelmente, eu também não tenho a resposta, mas desconfio de que ele tenha relação direta com um sentimento que é devastador para a alma humana: o sentimento de inferioridade. Talvez a fúria com que o racista, o homofóbico, e o xenófobo agridem o que se lhes apresenta diferente não seja mais do que uma tentativa desesperada de esquivar-se de uma condição – irreal, diga-se – de inferioridade que a própria sociedade lhe impôs. E o parâmetro de distinção sempre é o outro, supostamente num patamar mais baixo, crê o agressor. Se sou branco, meu parâmetro de distinção é o negro, e eu o inferiorizo para que a cor da minha pele denote a supremacia da minha raça. Mas, ao mesmo tempo em que sou branco, sou pobre, então a pequena burguesia me humilha e me rechaça, não sem ser, ela mesma, fustigada pelo aristocrata, que, por sua vez, é homossexual e igualmente sofre na carne os efeitos do preconceito, embora o pratique também no afã de libertar-se de um sentimento de inferioridade que o deteriora.

Curiosamente, aqueles que não suportam o diferente, reverenciam a diferença, que, em suma, é o artifício que os faz sentirem-se superiores. Portanto, se o diferente provoca-me ojeriza, a diferença é-me cara, pois é ela é o álibi perfeito para ódio que dedico ao outro. O fetiche reside em cultivar as diferenças, perpetuá-las e exaltá-las ao grau máximo, para que o parâmetro de distinção perdure e siga avalizando condutas arrogantes, truculentas e até mesmo violentas contra os seres humanos supostamente inferiores por sua condição social, étnica, sexual, política, religiosa, etc. Uma simples ameaça de igualdade petrifica quem se vale das diferenças para arrogar-se superior.

Oxalá, num futuro próximo, saibamos conviver com as diferenças e compreendamos que são elas a força motriz do universo. Sem as diferenças, não há movimento, e sem movimento, não há vida.

Sei lá se meu devaneio faz algum sentido ou é apenas aquilo a que se propôs ser, um devaneio. Mas, por ora, penso por aí. Quiçá, amanhã, mudarei de ideia. Minhas opiniões e impressões não são cláusulas pétreas, graças a deus! Não chego a ser uma metamorfose ambulante, mas não tenho medo de mudar meu ponto de vista, se me convém.

DESAFIO

Desafio proposto: escrever o que vier à cabeça, neste preciso momento. Desafio aceito.

Confesso que passou pela minha cabeça marotamente considerar o desafio vencido ao fim da primeira linha, logo acima. Sairia vitorioso eis que, inegavelmente, escrevi de supetão o que me veio à mente, e concluí com um categórico “desafio aceito”, que bem poderia soar como “missão cumprida”. Seria, porém, frustrante trapacear-me a mim mesmo com tamanho cinismo. O meu drama consiste no fato de que ando escrevendo muitíssimo pouco e, com isso, a ideia de que esses tempos infecundos estejam vindo anunciar o fim deste escriba tem me apavorado ultimamente! Minhas mal traçadas, que em bons tempos já foram quase diárias, foram se tornando mais esporádicas e hoje são raras, raríssimas. Meus escritos, que outrora se impunham à minha completa revelia, hoje se batem em fuga, e isso me assombra. Portanto, vou de encontro à modorra, e escrevo.

sábado, 1 de julho de 2017

ESFRIANDO

Solidão a dois:
No mesmo prato
O feijão de um lado
Do outro, o arroz
Sem nada no meio
Esfriando...

terça-feira, 30 de maio de 2017

CURANDO-ME...



Nostalgia. Do grego nostós, que significa regresso a casa, e álgos, que significa dor. O sofrimento por algo que se não mais possui.

Ando deveras nostálgico, ultimamente, levado por um redemoinho de boas lembranças que me arrancou da terra firme do hoje, do agora, e lançou-me com violência, em espiral, aos ventos incertos de um tempo que não mais há. E é neste tempo inexistente – exceto nas minhas reminiscências – que ando tentando cravar meus pés e me estabelecer novamente. Mas, sei bem, tal anseio é vão. Memórias são memórias, boas ou más. Lembranças não passam de lembranças, alegres ou tristonhas. O passado, doce ou amargo, foi-se para não voltar mais. Mas o meu estado de melancolia profunda me faz, muito a contragosto, visitar quase que diariamente a alcova desta senhora sedutora e lasciva cuja força me domina: a nostalgia.

Devolvam-me o outrora! Quero, agora, tudo outra vez, já não é sem hora! Quero-me aquele, hoje! Quero o eu do passado, no presente!

Ah, em verdade, pensando melhor, quero, não! Quero-me tal qual me encontro agora. Melhor, mais completo, mais pronto. Não quero voltar a ser o que eu, há muito, escolhi deixar de ser. E a nostalgia, feito alquimista de talento, eu vou converter em prazer – e não dor – do regresso, pelo salutar cultivo das boas lembranças, compreendendo-as como parte inequívoca do passado, e não mais como partícula faltante do presente.

Xô, nostalgia! Vieste, viste, mas não venceste! E estas tímidas linhas soam como alvíssaras!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

LEITO DE MORTE

Meia-tarde macilenta de verão
A cama me agarra com uma força que eu não supunha
Agarra-me com todos os seus dentes e unhas
E eu morro noutro sono

É vã a luta contra a modorra
A cama tem braços fortes
E lá vem outro sono febril
E vem lá outra morte

No sono, um sonho
Onde, sei lá por que forças
A cama não me faz frente
Arranco-lhe as unhas e dentes
Transformo os grilhões em pó
Humilho essa cadela
Sou mais poderoso que ela
Que sucumbe nesse entrementes

Mas, no mesmo leito, desperto
E, mal tento pôr-me de pé
Uma dama inebriante vira-me areia nos olhos
Cansaço nos movimentos
E ópio nos pensamentos

Eu não luto mais, acato minha sorte
Só busco, agora, a paz
Do último sono, sem sonhos
Da última morte, sem cortes.

NO MEIO DO EXPEDIENTE

Então o que é isso
De sentir a tua falta
Já na tarde do mesmo dia
Em que acordei ao teu lado?

De sentir saudade
Um segundo após o beijo
De bom dia
Que te dei
Meio dormindo?

De lembrar de ti
Assim, de repente
No meio do expediente
E bater aquela vontade
De fazer poesia?

Então, o que é isso?
Diz-me, tu, seja lá o que for
Não sei como sentes daí
Daqui, está bem claro: é amor.

NOITE BOA

Cama bagunçada
Sinal de visita boa
Na noite passada
Não bagunço a cama à toa.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO?


Bandido bom é bandido morto? Errado! Um bandido, muito antes de ser bandido, é um ser humano, assim como nós, supostos cidadãos “de bem”, que proferimos tal desatino com a arrogância típica dos fascistas. O “bandido” de que falo, fruto da exclusão social e da marginalização institucional, é um cidadão sem cidadania, que lhe foi solenemente solapada já antes da sua concepção. Ele é vítima de uma sociedade doente e de um estado burguês que lhe recusam os direitos humanos mais elementares, tais como educação de qualidade, moradia digna, saúde e alimentação, além de respeito e afeto, cuja falta é capaz de embrutecer a mais terna das criaturas.

O bandido é um subproduto da desigualdade social, da concentração de riqueza e do preconceito, elementos constitutivos do sistema capitalista. Ele é o anti-herói que, diante da total inexistência de perspectivas, recusa as condições sociais humilhantes e desumanas que lhe são impostas e reage, de forma primitiva e desesperada, contra a violência de que é vítima cotidianamente, num ato instintivo de legítima defesa, conquanto sabidamente equivocado. Subjaz, na ação deste bandido, um anseio inconsciente de fazer justiça social com as próprias mãos.

O que podemos esperar de um ser invisível, ignorado pela sociedade, compelido alucinadamente ao consumo de supérfluos que lhe são inacessíveis, mas que, sem os quais – assim afirmam os publicitários – seu valor no corpo social jamais será reconhecido? Qual a perspectiva real de quem é condenado sumariamente pelos olhares inquisidores das ditas pessoas “de bem” em razão das roupas que veste, da maneira simples de falar, do bairro onde vive ou do sentimento de inferioridade que pauta sua vida? Que sonhos são permitidos a esses bandidos sonhar quando a realidade que os engole é um verdadeiro holocausto pós-moderno? O que podemos esperar destes bandidos além de uma postura reativa e, no mais das vezes, violenta, contra quem os massacra na carne e na alma?

Talvez o bandido bom sejamos nós, que, sabe-se lá por que razão ou privilégio, nascemos com saúde, em famílias estruturadas, tivemos acesso a uma educação de qualidade, vivemos em condições dignas de moradia, conquistamos bons empregos pelos próprios méritos, fomos criados cercados de carinho, afeto e compreensão. Em suma, legítimos cidadãos “de bem”, mas que não hesitam ser “do mal”, às vezes, quando apresentam como solução mágica para a violência a simples produção de mais violência contra quem já é violentado desde sempre.

Talvez sejamos o bandido que uma vida digna evitou.

sábado, 6 de agosto de 2016

LIBERDADE

Para o grande pensador alemão Karl Marx, autor, junto com Engels, de O Capital e O Manifesto do Partido Comunista, liberdade é a possibilidade de escolha entre alternativas concretas. Não me venham com aquela cantilena puída de que vivemos em um país livre, democrático, em que todo o cidadão tem o pleno direito de escolha e de acesso, e que, para tanto, basta desejar. Entre desejar e realizar existe um abismo chamado desigualdade social. Enquanto o pobre deseja viajar a Paris e um dia entrar na universidade, o rico realiza, eis que lhe são concretas tais alternativas, enquanto que, para o pobre, resta a liberdade de sonhar com possibilidades impossíveis. E há momentos em que a falta de consciência e de cultura é tal que, ao pobre, não sobra sequer o desejo de realizar. Esterilizar o desejo é o ápice do despotismo, é sonegar ao ser humano até mesmo o direito de sonhar. Liberdade sem possibilidades concretas é a face moderna da escravidão.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

HOMEM INVISÍVEL



Encerrei, essa semana, a leitura de Homem Invisível, do escritor norte-americano Ralph Elison – não confundir com O Homem Invisível, a célebre ficção científica de H. G. Wells.

Este homem invisível de que falo é um jovem estudante negro, do sul dos EUA, muito sagaz e inteligente, que migra para Nova Iorque por forças circunstanciais que não lhe oferecem alternativa senão a de subir para o norte e instalar-se no Harlem, gueto afro-americano da Big Apple. Sua condição de negro e pobre o faz vítima de toda a sorte de preconceitos e injustiças, e sua luta por uma realidade alternativa, não só para si, mas para os seus iguais, fá-lo perceber, e até mesmo aceitar, a invisibilidade social que lhe é imposta por uma sociedade inumana e doente.

A história é de um realismo perturbador e, embora transcorra nos anos quarenta do século passado, pode facilmente ser contextualizada no tempo presente, uma vez que versa sobre um das moléstias mais abjetas e absurdas de que padece nossa sociedade contemporânea: o racismo. O racismo ostensivo e franco, o racismo sutil e velado, o racismo aliado ao preconceito de classe, de gênero, de orientação sexual. A invisibilidade social faz suas vítimas nas mais variadas formas e matizes. O racismo é uma das mais violentas.

Ao protagonista não é atribuído nem sequer alcunha! O personagem, pasmem!, não tem nome, e nisso o autor –  também negro –  acerta com precisão cirúrgica, logrando fazê-lo invisível até mesmo a nós, leitores, que o acompanham intimamente em sua trajetória errante, página após página, sem sequer poder referi-lo nominalmente. Com esse artifício genial – o anonimato –, Elison ergue uma muralha intransponível entre o leitor e seu personagem, evidenciando ainda mais a invisibilidade, insignificância e vileza de seu protagonista anônimo. Afinal, é apenas um negro.

Um livro inegavelmente relevante que todos, em que pese a cor da pele, devem conhecer. Lê-lo, e compreendê-lo, é um exercício necessário de empatia que nos fará pessoas melhores.

domingo, 27 de março de 2016

MEUS DIAS

Cá dentro, o silêncio e a solidão
Lá fora, os ruídos alheios
Em ritmos, tons e timbres variados
Os universitários vibram suas vozes
Que me chegam em uníssono pela sacada
Os vizinhos? Não os ouço
Por vezes, julgo não haver nenhum
Quando falam, é pelo motor de seus carros
Pelos incessantes bateres de porta
E pelo ranger áspero das roldanas dos portões eletrônicos
Acionados a distância
Tal qual se me apresentam tais vizinhos – a distância

Cá dentro, eu os fico escutando com curiosidade juvenil
E percebo-me só e mal acompanhado
Neste asséptico cortiço, sou só e somos muitos
Eu, os motores, os portões e portas
A TV, o telejornal, a telenovela
A minha cerveja sem álcool, meus comprimidos
Os vizinhos tácitos e remotos
E o sono, lenitivo que me priva da solidão por algumas horas

Cá dentro, existe uma escada tagarela com corrimão de madeira
Que dialoga com os dois andares da casa sem tomar partido
Contudo, quando estou nela, a infeliz se cala
Ainda assim, eu puxo uma conversa trivial
Pra ouvir o silêncio de sua resposta
E a sua fria indiferença me conforta
Se estou descendo ou subindo
Por alguns degraus, a solidão é morta

Cá dentro, há o quarto da minha filha
Que dá de porta com o meu
Quando ela me visita, é meu cômodo dileto
É um oásis de alegria
Na sua ausência, a solidão nele se aloja
E, dali, põe-se a me espreitar
Num silêncio de expectativa de um não sei quê que nunca vem
Tranco a porta do meu quarto
Aumento o volume da TV
A telenovela retumba pela casa
Bebo outra cerveja sem álcool
Engulo meus comprimidos
Mas ela se mantém em inabalável vigília
Seu escárnio atravessa paredes e ignora portas trancadas
Expulsá-la dali? Só mesmo minha filha!
Mas, tão só no enquanto de suas visitas
Pois que, sai minha filha, solidão retorna
E se instala com a insolência de sempre
E com a obstinação de nunca

Cá dentro, bem dentro, mesmo
Há um coração batendo em descompasso
Há uma cabeça que nada entendeu – e já desistiu de fazê-lo
Há uma alma inquieta e solitária

Lá fora, a explosão dos motores
O ferro contra ferro dos portões eletrônicos
O alarido enfadonho dos acadêmicos
As portas esbofeteando o ar
Os vizinhos silenciosos feito a lua
E o tempo, senhor de tudo

Meu tempo é espera
Enquanto espero
Há esperança
De que, cá dentro
Bem dentro, mesmo
Tudo melhore

Porque, lá fora
Tudo só piora.

domingo, 24 de janeiro de 2016

INCONSTÂNCIA

Um momento feliz é
Fruta mui suculenta
Cuja metade é doce
E a outra me atormenta

Quisera-a doce de pleno
Mas ao final, em minha boca
Somente o amargo do veneno.

MORANGO E CHOCOLATE



Um professor homossexual, sensível e intenso em tudo o que faz, amante da literatura e das artes em geral, e que reivindica o pleno direito de expressão em uma Cuba, no final da década de 70, sob um jugo bastante arbitrário. Este é Diego.

Um jovem estudante universitário, engajado militante comunista, defensor incondicional do regime castrista e entusiasta das conquistas da revolução, e que sofreu uma recente desilusão amorosa. Este é David.

Morango e Chocolate. Diego e David.

O encontro inusitado dos dois protagonistas dá-se na afamada sorveteria Coppélia, inevitável paradouro dos havaneses nas tardes escaldantes do verão caribenho. Ao entrar na sorveteria, Diego avista David, cuja beleza desperta-lhe incontido interesse, e decide abordá-lo, sentando-se à mesa onde o jovem estudante saboreia, solitário e absorto, o seu sorvete de chocolate. E Diego o faz de maneira súbita e um tanto inconveniente, o que, a princípio, causa desconforto em David. Inferindo seu interesse por literatura, sob o pretexto de apresentar-lhe autores estrangeiros pouco apreciados pelo regime, Diego convence David a acompanhá-lo até sua casa. A partir desta visita, inicia-se uma comovente história de amizade e respeito capaz superar qualquer espécie de preconceito e arrefecer as mais contundentes diferenças ideológicas.

Na história, Diego acolhe David em seu mundo e o ensina sobre tolerância, liberdade, amor e amizade – além da literatura, paixão que se lhes revela comum – , enquanto o jovem comunista, com sua inquietude e entusiasmo, resgata em seu tutor os sentimentos de esperança e de perspectiva que há muito lhe haviam desaparecido, dadas as vicissitudes e reveses que o fizeram descrer das pessoas e da sociedade que o hostiliza por sua condição de homossexual assumido e de artista dissidente.

A força da amizade os faz cúmplices de um resgate mútuo do qual ambos saem humanamente fortalecidos para seguirem superando as adversidades que lhes sobrevêm cotidianamente, definindo o rumo de seus próprios destinos.

Morango e Chocolate é, ademais, uma tocante declaração de amor a Cuba. Com todas as suas mazelas e seus encantos, Cuba é o único e definitivo lar de todos os cubanos – e a história de Diego e David não deixa dúvidas quanto a isso. Entre o revolucionário fervoroso e o artista oprimido, é-nos apresentada a Cuba real, sem ufanismo nem amargura. Reside neste antagonismo a espinha dorsal deste belíssimo enredo. E os sorvetes de morango e de chocolate, por fim, são servidos em uma mesma taça chamada Cuba.

Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate) é uma coprodução cubano-mexicano-espanhola, dirigida por Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío. Premiado em Berlim e Gramado, é, até hoje, o único filme cubano a concorrer ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, em 1995.

sábado, 26 de dezembro de 2015

SAMBA COM FOME

Se falta feijão
Na panela
Dá nada, não!
Batuco no rabo dela
Um samba-canção
E a gurizada se acalma.

Que se há de fazer?
Deixa a fome doer!
Em dia sem feijão
Resta-nos dar de comer
À alma.

domingo, 6 de dezembro de 2015

COMO ASSIM, DITADURA?



O termo DITADURA DO PROLETARIADO, cunhado por Joseph Weydemeyer e adotado por diversos autores, mormente por Karl Marx e Friedrich Engels, embora polêmico e contraditório ao primeiro contato, é facilmente compreensível. Em que pese a imagem que esta palavrinha assustadora – ditadura! – instantaneamente nos sugere, há que se debruçar com um tanto mais de apuro sobre o significado da tal DITADORA DO PROLETARIADO.

Aos desavisados – a grande maioria – a expressão representa uma grave mácula no ideário comunista. Lá pelas tantas, o neófito marxista depara-se com o termo DITADURA em meio ao jardim florido da utopia comunista e se assusta! – Como assim, DITADURA???, indaga-se com profundo desapontamento.

Para os sofistas, o termo DITADURA DO PROLETARIADO expressa o conceito que faz cair por terra a teoria comunista, e o guardam astuciosamente sob a manga para, no momento oportuno, lançá-lo ao debate para desqualificar os argumentos pró-socialistas: “o socialismo nunca será democrático, pois adota por preceito basilar uma DITADURA, a ditadura do proletariado.”

Pois bem, analisemos.

No sistema capitalista, prevalece o que chamamos de Ordem Burguesa, na qual a burguesia, valendo-se de seu poderio econômico, apropria-se do Estado e o faz motor de seus interesses, em evidente prejuízo ao trabalhador que, além de não possuir os bens de produção, não conta com sua tutela. Podemos, com um mínimo de boa vontade, chamar esse cenário de DITADURA BURGUESA ou DITADURA DO CAPITAL.

Em contraponto a isso, o socialismo, enquanto fase inferior do comunismo no processo de evolução social, defende a DITADURA DO PROLETARIADO, que nada mais é do que o trabalhador protagonizando a sua libertação através da apropriação do Estado pela via revolucionária, fazendo-o servir aos seus propósitos, que são a extinção total da burguesia e a promoção da igualdade social.

Pode-se comparar didaticamente a expressão DITADURA (poder) DO PROLETARIADO (povo) com o termo DEMOCRACIA, cuja origem etimológica provém do grego: dêmos (povo) e kratía (força, poder).

Portanto, o socialismo, assim como o comunismo, traz a democracia em seu gene, e em nada se assemelha ao despotismo das ditaduras por que passamos no século XX, inclusive aquelas ditas comunistas, que, em verdade, promoveram a sua mais perfeita e abjeta antítese.

Não nos confundamos mais.

domingo, 14 de junho de 2015

LIVRO EMPRESTADO

Era para ser, tão-somente
Um breve e despretensioso flerte
Eis que, de repente
Sou laçado com destreza
Por teu encanto, tua nobreza
E ponho-me a ler-te

O flerte virou olhar
O olhar petrificou-me
E inerme, resignei-me

Tua tez amarelecida
Teu olor, teu mofo
Teu bolor
Raptaram os meus sentidos
Teu sábio silêncio que tudo diz
Por um triz
Não rebenta com meus ouvidos

E os sussurros que proferiste
Os tombos que propuseste
As frases que construíste
Com talento inconteste
Sobre tudo aquilo que viste
Na ilha de que vieste
Deitaram-me inerte
Mas de pensamento em riste

Agora, num voo de meia hora
Deleito-me, já, na quarenta e seis
Palpite: antes da aurora
Dou cabo – quiçá antes das seis
Das duzentas e vinte e três

Então
Devolvo o Furacão
Sobre Cuba, o livro em questão
A quem, de bom grado, emprestou-mo
Com os mais sinceros agouros
De “VIVA A REVOLUÇÃO!”

OS CAMINHOS DE TODAS AS SEXTAS

Sexta-feira chuvosa
Hoje, não caminharei pelas ruas de Tramandaí
De mãos dadas, junto a ti
Hoje, em razão da chuva
E do adiantado da hora
Ficarei em casa
Lamentando o “lá fora”
Pela janela
E vociferando através dela
Sem te deixar dormir

Hoje, não vou ao encontro do sal
Que a chuva lavou, diluiu, dissipou...
Que a chuva usurpou-me
Terei apenas o sal
Que, a mando do mar
O vento me trouxe
De contrabando
Por cima das nuvens

Hoje é como se fosse
Um dia qualquer
Numa cidade qualquer
Distante do mar
Sem sal e sem os caminhos
De todas as sextas

Hoje, não vou caminhar
Os caminhos de todas as sextas
A noite está-me indigesta
A chuva estragou-me a festa
E até a cerveja me está repugnando

Hoje, sexta-feira de chuva
Não saio
Não salgo a alma
Fico aqui lastimando
A falta de sorte

Hoje estou meio sem norte
Tramandaí
Sem sal, sem ruas
Sem os caminhos de todas as sextas!
Não!
Prefiro a morte.

SOBRE LER

Quando se lê, não se é sujeito, é-se objeto
Pois o lido não se altera pós-leitura
É o leitor que se surpreende mais completo
Mais ereto, com maior envergadura
Então, há que se dizer, por mais correto
O livro é o criador de uma nova criatura.

A SEGUNDA CHANCE

Aqui jaz um adulto infeliz
Que sempre teve tudo que quis
E que, um dia, de tanto tédio
Quis ser criança outra vez
E jogou-se do alto de um prédio
Que, por sinal, era seu
E morreu

Aqui vive um menino feliz
Que não teve tudo que quis
Mas quer bem tudo que tem
Noite sim, noite também
Sonha com um corpo que cai
De uma altura indecente
Mas acorda e esquece
Não tem posses nem precedentes
Tédio? Qual o quê?
Nunca viu nem conhece!
Abraçou a bola, foi pro campinho
E viveu.

MEDICINA DA ALMA

A poesia é a medicina da alma
A alma sã é sã pela poesia
A enferma, só com poesia convalesce

De minha parte
Tudo que não é poesia
Me adoece

A poesia, em seu mister, dispensa
Doutores e barbitúricos
Prescinde de hospitais
E de métodos cirúrgicos

A poesia é a cura
Direta e pura, sem prepostos
Nem segredos
A alma agradece

Se não é poesia, é mero paliativo
Ou placebo
Se não é poesia, esquece.